J. Edgar (2011)

Publicado: 30/05/2012 por Renato Thibes em Filmes
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J. Edgar

J. Edgar Hoover não é o nome do edifício do FBI em Washington a toa. O homem não só criou a agência, como estabeleceu métodos de investigação usados  até hoje, padronizou a impressão digital como modo de identificação no mundo todo, conviveu com 8 presidentes norte-americanos e, do alto de sua mesa devidamente posicionada sobre uma plataforma para torná-lo mais imponente, enfrentou comunistas, mafiosos, terroristas e tudo mais que ameaçou o império americano no século passado. Em outras palavras, séries como Arquivo X, CSI, Dexter e 24 Horas não existiriam sem ele.

O fato de Clint Eastwood ter abraçado o projeto de sua cinebiografia também não deve ter sido por acaso. Além de defensor das mais nobres instituições americanas, o velho Clint tem a chance de mostrar o capítulo posterior, na história dos EUA, ao fim do velho oeste, seu território sagrado. Não é exagero dizer que, antes de Hoover, os EUA ainda eram um cenário de western, com suas leis frágeis e seus homens da lei sobrevivendo na base da estrela de xerife no peito.

Hoover organizou o combate ao crime, mas não era exatamente um herói. Usava seu poder para colocar escutas nas casas de celebridades (e até da primeira dama), manipulava os políticos de acordo com seus interesses, mentia bastante sobre seus feitos heróicos e, na intimidade do lar, gostava de usar roupas femininas. Se ainda hoje isso causa espanto com nosso querido Laerte, imagine naquela época, com um sujeito durão como Hoover, paladino da justiça, usando saia. O mais incrível é como o cowboy Eastwood demonstra sensibilidade ao tratar do tema, mostrando a força da mãe opressora (Judi Dench) e as tendências homossexuais reprimidas do personagem ao longo de muitos anos, do caso não consumado com sua secretária (Naomi Watts) ao relacionamento muito próximo com Clyde Tolson (Armie Hammer), seu melhor amigo e companheiro da vida toda.

Uma história de décadas, cheia de passagens importantes na história americana e ainda com muita dedicação à intimidade do protagonista é um desafio e tanto e a edição dá um jeito de intercalar diferentes épocas sem confundir a narrativa. Um ponto importante, infelizmente, incomoda: a caracterização dos personagens. Leonardo DiCaprio como Hoover até convence na interpretação, mas não no visual. Mesmo problema que aconteceu com seu Howard Hughes em O Aviador: DiCaprio tem cara de moleque e não há maquiagem que ajude. Quando envelhecido, ele não é Hoover, ele é DiCaprio com maquiagem e trejeitos de velho, como aqueles personagens irritantes do Adam Sandler. O Tolson de Hammer é ainda pior: dá a impressão de que a qualquer momento vai tirar a máscara e veremos o Ethan Hunt de Missão Impossível ali embaixo. Deram a maquiagem do ator coadjuvante para o departamento de estagiários? Qual o problema de dar o papel para atores realmente velhos, que não precisam tremer e sentir as costas a cada passo para demonstrar a idade?

Que o Clint Eastwood retome o cargo de ator e assuma papeis de peso como este. Como ele demonstrou naquela capa de revista, maquiagem é para os fracos.

Piratas do Caribe 4

É tanta reprise na TV, tanta exposição, tanto Johnny Depp, que nem deu tempo de sentir saudade de Jack Sparrow desde o último filme da trilogia Piratas do Caribe, lançado em 2007. Mesmo assim, 4 anos depois, ele voltou. Sem o diretor Gore Verbinski que, bem ou mal, conduziu a série blockbuster para o caminho do sucesso. Sem o casal coadjuvante Orlando Bloom e Keira Knightley. Sem a divertida tripulação do Pérola Negra, aquele bando de piratas feios, sujos e malvados que era responsável por dividir o humor com o protagonista. E, no final das contas, sem a menor graça.

Que essa quarta parte é um caça-níqueis safado, não resta a menor dúvida. Mas mesmo as fracas partes 2 e 3 da trilogia tinham lá seus méritos, principalmente quando o Capitão Barbossa (Geoffrey Rush) estava presente. Dessa vez, nem ele salva.

O pirata Jack Sparrow está de volta sem seu querido navio, o Pérola Negra, mas com um mapa para a Fonte da Juventude. O local é cobiçado pelo Rei George da Inglaterra, pelo exército espanhol e pelo capitão Barba Negra (Ian McShane, da série Deadwood), pai de Angelica (Penelope Cruz), ex-affair de Sparrow. Todos vão se atropelar e se engalfinhar no caminho para a juventude eterna, em um roteiro confuso e muito longo que passa longe daquela beleza de matinê proporcionada pelo primeiro filme.

Este quarto capítulo, que estabelece um novo início para a série, propõe o seguinte questionamento: até que ponto Jack Sparrow (e Johnny Depp) tem carisma suficiente pra carregar um filme deste porte nas costas? Já conhecemos seus trejeitos, suas falhas de caráter, sua malandragem cativante, sua ginga alcoolizada… nem seu papai Keith Richards é alguma novidade digna de nota. De novidade mesmo, só o tal romance com Penelope Cruz, que não chega a ser tão envolvente assim.

Se Jack Sparrow torna-se um adorno em seu próprio filme, o embate entre Geoffrey Rush e Ian McShane, que deveria ser bombástico, também é bobo e desperdiçado. É visível o desconforto do diretor Rob Marshall (Chicago) nas cenas de ação, coreografando as infinitas lutas como se fossem seus musicais. Mas nada é pior do que o casalzinho Crepúsculo (uma triste tendência do cinema pipoca) formado nas coxas para substituir Orlando & Keira. Trata-se de um padre chato, sem nenhuma função na trama, com uma sereia que, sem nenhum motivo aparente, abandona seu instinto assassino em nome do amor. Ruim demais. E enquanto o padre chora por seu amor impossível, um suposto conflito religioso na busca pela fonte da juventude ameaça abraçar Indiana Jones e a Última Cruzada, mas vai pro ralo junto com todo o resto do filme.

Depois dos letreiros, uma cena adicional bastante forçada (mesmo para os padrões da série) tenta criar um gancho para o próximo episódio, para o Johnny Depp ter o que fazer entre um filme do Tim Burton e outro. Chega, gente.

Homeland – Primeira Temporada (2011)

Publicado: 21/05/2012 por Renato Thibes em Séries
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Homeland

Um soldado americano é mantido como prisioneiro de guerra durante anos e volta diferente. Quem acompanhou Arquivo X já conhece o tema e o fato de esta ser a sinopse de Homeland não é mera coincidência. Entre os principais responsáveis pela premiada série estão a dupla Alex Gansa e Howard Gordon, que já botaram Mulder & Scully para perseguirem ex-combatentes traumatizados nos anos 90. A dupla Gansa/Gordon também esteve presente no sucesso de 24 Horas, currículo suficiente para garantir tensão, paranoia e guerra ao terror.

Em Homeland, o soldado que passou 8 anos em um cativeiro no Iraque é o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis), recebido de volta aos EUA como heroi nacional. Só uma pessoa desconfia dele. A agente da CIA Carrie Mathison (Claire Danes) tem a informação de que um soldado americano mudou de lado e toda sua suspeita se volta para Brody. Contrariando as ordens de seus superiores – e de seu melhor amigo e mentor Saul (Mandy Patinkin) – Carrie resolve investigar a vida do fuzileiro por conta própria, indo longe demais na paranoia para provar sua tese.

Carrie, personagem incrível, é uma espécie de Fox Mulder que se deixou dominar pela paranoia depois do 11 de setembro. Diagnosticada como bipolar, vive sob o efeito de drogas pesadas para não pirar de vez. Enquanto isso, Brody é um cidadão exemplar, pai de família, marido de uma linda mulher (a nossa conterrânea Morena Baccarin) que, julgando-se viúva, andava se envolvendo com o melhor amigo do marido – um fenômeno também visto em The Walking Dead. Porque olhando bem de perto nada é perfeito nessa vida, o bem e o mal não são facilmente identificados e absolutamente todos são manipuláveis.

O casting ajuda demais na composição dos protagonistas. Particularmente, não vou com a cara da Claire Danes, portanto é fácil considerá-la simplesmente paranoica com seus olhos arregalados, o cabelo loiro que não combina, a entrega total à carreira, a atitude arrogante e uma carência afetiva que desmancha toda a pose de mulher durona. Já Damian Lewis é o eterno Tenente Winters de Band of Brothers, um sujeito acima do bem e do mal, ninguém em sã consciência poderia duvidar dele. Além deste detalhe, o roteiro coeso da série joga o público pra lá e pra cá a cada episódio, oferecendo, escondendo e recolhendo pistas pra todo mundo ficar doido igual a Carrie.

Conceitualmente, Homeland é quase um pedido de desculpa pela existência de Jack Bauer, o implacável caçador de terroristas capaz de qualquer coisa para defender seu país. Ou uma prova do amadurecimento das séries depois dele, uma demonstração de relevância histórica que justifica o fato de Homeland ter tirado o Globo de Ouro de Game of Thrones. Com os pés no chão e os olhos no que está acontecendo no mundo, Homeland mostra que na guerra ao terror nem tudo é tão preto no branco, não existem mocinhos e bandidos, a América não é santa e os loucos podem ser os únicos realmente lúcidos no final das contas.

Shame (2011)

Publicado: 05/05/2012 por andrezp em Filmes
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O cinema pornográfico sempre teve como meta a satisfação do público ligado numa bronha. O cinema de ação dos anos 80 sempre teve como meta a satisfação do público ligado em coisas explodindo. Os melodramas feitos para TV, a satisfação do público que gosta de molhar um lenço de lágrimas. Diretores e roteiristas normalmente trabalham para atiçar o fetiche do espectador. Mas em alguns casos, o filme é feito para satisfação do próprio cineasta. “Shame” é um desses casos. Nada mais que um filme-fetiche feito para satisfazer seu próprio diretor, Steve McQueen.

Ao contrário do homônimo ator, o diretor McQueen peca na paudurescência. “Shame” é um drama erótico mediano, disfarçado de filme de arte. Uma espécie de Emmanuelle dos dias atuais. Ou, comparando com uma geração passada, uma atualização de “9 1/2 Semanas de Amor”. Tem parentesco com o velho sucesso erótico de Adrian Lyne na proposta de apresentar o sexo como um ato de obsessão. Mas o filme dos anos 80 era uma punhetagem só: divertido, quente, tesudo, como todo bom softcore. “Shame”, ao contrário, se leva a sério demais. Apresenta na história de um neo-yuppie de Manhattan viciado em sexo, uma alusão à qualquer tipo extremo de dependência química. Brandon, o protagonista, tem sua rotina de ninfomaníaco abalada ao receber uma inesperada e prolongada visita da irmã. O conflito gerado a partir disso, é morno. Assim como todo o filme: não adianta mostrar longos takes do ator principal Michael Fassbender balançando seu bilau pra lá e pra cá. Porque as cenas de sexo são tão mal filmadas que a impressão que fica é que o diretor McQueen não gosta de sexo, ou tem medo de trepar. Moralista, ainda arrisca um discurso careta diferenciando amor de sexo. Como se o mundo fosse esse preto-e-branco. Com mão de ferro, conduz sequências extremamente não-convincentes e dirige mal os atores. Carey Mulligan, cujo personagem deveria ser tão frágil quanto sua mãe solteira em “Drive”, é apenas irritante. E a tão elogiada sequência em que mia canta uma versão sonolenta de “New York, New York” é absolutamente desnecessária, e ainda desconstrói de cara o caráter do protagonista: por que diabos ele chora compulsivamente ali? E por que a vida dos irmãos é tão ruim? Falta passado, falta cenário, faltam pistas.

Isso tudo compõe um quadro no qual reina a visão do diretor: sexo é uma coisa ruim e perigosa. Ok, Kubrick falou a mesma coisa em “Eyes Wide Shut”, mas seus personagens tinham vida própria, não eram marionetes proferindo um discurso pronto.

Lá pelo final da sexta e última temporada dos Sopranos, Carmela Soprano, a primeira dama da máfia de New Jersey, desabafa colocando o marido contra a parede: ela não aguenta mais o mimimi da depressão. Não aguenta mais a família Soprano colocando na condição psiquiátrica a desculpa para todas as suas falhas. Por outro lado, a Dra. Melfi, terapeuta do homem, entra em contato com um estudo científico que diz que sociopatas se beneficiam da terapia. Não melhoram com ela, pelo contrário, usam os conceitos psiquiátricos para justificar seus atos mais bestiais. “É tudo culpa da minha mãe”. Freud criou o melhor álibi.

São estes eventos, mais do que a guerra finalmente declarada contra a máfia de Nova York, que encerram o arco narrativo que durante anos fez dos Sopranos a melhor série da história da TV. Foram seis primorosas temporadas – a última, com 21 episódios divididos entre 2006 e 2007, valeu por duas – de análise da mente tortuosa de Tony Soprano, suas relações familiares, suas crises pessoais e profissionais. Não me lembro de um personagem ter sido tão bem destrinchado em qualquer outra série ou filme. Em outras palavras, nunca conhecemos alguém tão bem como conhecemos Tony Soprano.

A última temporada, além de encerrar o ciclo, foca nas fraquezas do homem. Não só de Tony, mas de todos os homens ao seu redor. Todos têm algo que coloca em cheque a sua virilidade e, em um meio onde a testosterona domina, isso é mais do que preocupante – é trágico. Assim, acompanhamos o sofrimento de Vito, o capanga gay que tem sua intimidade exposta em todo o meio mafioso e se torna um problema. Bobby, o capanga de bom coração que coleciona trenzinhos de ferro e não tem o respeito dos colegas. Paulie, o capanga que descobre que é filho adotado e tem câncer de próstata. Johnny Sack, o ex-chefe da máfia novaiorquina, incapaz de acompanhar o casamento da filha sem que o FBI estrague sua festa. Junior, o tio com Alzheimer, abandonado à própria sorte no hospício. Christopher, o sobrinho que se recuperou dos vícios mas como consequência perdeu toda a vida social tão importante para os gângsters. E finalmente A.J., o filho que não cansa de decepcioná-lo, que não consegue superar uma desilusão amorosa e se entrega à depressão da maneira mais patética possível. O próprio Tony, recuperando-se de um tiro no estômago, deve provar para si mesmo e para seus comandados que ainda tem força para se manter no topo, ao mesmo tempo em que despreza todos os pontos fracos dos homens ao redor.

Entretanto, em meio a tanta demonstração de força, o que faz falta quando você termina a maratona da série são aqueles pequenos momentos de amenidades, que te aproximam da família mais do que qualquer coisa. Aquele típico jantar italiano, o café da manhã servido com alguma dor de cabeça proporcionada pelos filhos, as inúmeras referências musicais e cinematográficas, a festa de aniversário de Phil Leotardo com Nancy Sinatra cantando “Big Boss Man”… Por isso o final é tão surpreendente, porque inverte a expectativa e evita a tragédia anunciada com níveis de tensão quase insuportáveis botando o pé no freio, trazendo tudo para a estaca zero, para a paz ilusória do cotidiano, selada com um aperto de mãos tão frágil como tudo na vida. Fica a lição final que Tony Soprano nos ensinou: tem que ser macho para continuar acreditando que a vida vale a pena.

Os Vingadores (The Avengers, 2012)

Publicado: 30/04/2012 por Renato Thibes em Filmes
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Os Vingadores

Foram 4 anos de espera desde que o primeiro filme do Homem de Ferro mostrou que os Vingadores tinham potencial no cinema. De lá pra cá, a Marvel virou estúdio de cinema e todos os seus filmes se deram ao luxo de ser meros prólogos para a reunião da turma. Tudo sob absoluto controle dos chefões da Marvel, sem Sam Raimi, Bryan Singer ou Chris Nolan para imprimir algum traço de personalidade aos filmes. Seguindo o padrão, para comandar o tão aguardado encontro dos heróis foi escalado Joss Whedon, criador da série ” Buffy”.

Se não há muito talento atrás das câmeras, esse formato garante alta fidelidade às mitologias dos heróis e a correta relação entre todos eles. Nesse ponto, Os Vingadores é praticamente perfeito. A trama gira em torno do vilão Loki (Tom Hiddleston), irmão do Thor (Chris Hemsworth), que ameaça conquistar o mundo usando um exército alien. Para conter a ameaça, Nick Fury (Samuel L. Jackson), o chefão da S.H.I.E.L.D., reúne o time de notáveis, a seleção mundial de super-heróis.

O roteiro é uma bobagem, um pretexto para  colocar todos os personagens em rota de colisão, entrando em conflito uns contra os outros, e depois se unindo para lutar contra um perigo maior. O clímax destruidor em Nova York é uma porrada visual e sonora de fazer Michael Bay sentir vergonha, mas não supera os inúmeros combates de videogame entre os próprios Vingadores, as tiradinhas de Tony Stark (Robert Downey Jr.), a angústia do Dr. Banner (Mark Ruffalo sensacional) ou as peripécias da Viúva Negra (Scarlett Johansson), que sai em desvantagem por não ter nenhum superpoder além da capacidade toda feminina de manipular os homens.

Temos também o Thor assumindo sua condição de divindade, o Capitão América (Chris Evans) assumindo sua condição de soldado retrô e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) assumindo sua condição de Legolas, e todos eles têm espaço para brilhar, todos têm um papel com alguma importância na história. Quando eles se juntam em frente à Grand Central Station para salvar o dia, a sensação é que a minha geração chegou ao ápice do controle sobre Hollywood. Quer dizer, tem muito moleque nerd de 30 a 40 anos realizando seus sonhos particulares de infância na indústria cinematográfica e gerando muito lucro por tabela.

Infelizmente, a outra sensação, essa mais madura e mais pé no chão, é que essa magia toda não tem muito para onde ir, dada a fragilidade da trama. A tradicional cena pós-créditos promete outra ameaça ao planeta para breve. Também teremos outros filmes dos personagens em carreira solo. Tudo isso sem a perspectiva da reunião ou a novidade dos heróis reunidos. Será que, juntos ou separados, eles vão aguentar muito tempo?

A religião foi o tema principal da irregular sexta temporada de Dexter, representada por uma dupla de vilões que segue o Antigo Testamento para fazer suas vítimas e antecipar o dia do juízo final. Eles são o professor Gellar (Edward James Olmos) e seu pupilo Travis Marshall (Colin Hanks, filho do Tom). Para equilibrar a balança entre o bem que não é exatamente bom e o mal que não é necessariamente mau, Dexter conhece o Irmão Sam (Mos Def), criminoso que cumpriu sua pena e agora é um pastor guiando ovelhas desgarradas pelo vale das sombras. Sam é a maior dádiva da temporada e sua relação com Dexter rende os melhores momentos de reflexão, apesar de não durar muito.

A sexta temporada tem essa boa dose de conflitos entre duplas, das mais sérias (Gellar e Travis) às mais fanfarronas (Quinn e Batista se tornam uma daquelas duplas policiais atrapalhadas dos anos 80, com direito ao carrão do Burt Reynolds).  Gellar é um serial killer midiático, daqueles que os tablóides adoram, que espalham pânico na população. Seus métodos misturam “Seven” com o coiote do papaléguas, já que faz questão de desenhar seus planos mirabolantes antes de colocá-los em prática. Muito rapidamente ele se torna uma caricatura com seu papo manjado de destruir o mundo. Mais uma vez, que saudade do Trinity da quarta temporada.

Além do fanatismo religioso e da questão da fé, a sexta temporada atira para outros lados e a esquizofrenia é um deles. Assim, o papel de Harry como o conselheiro imaginário, pai e consciência ao mesmo tempo, ganha temporariamente um substituto inusitado e um espelho bizarro do lado dos vilões. São recursos bem bacanas que deveriam render muito mais mas que, de novo, duram muito pouco. A necessidade de incluir reviravoltas atropela o desenvolvimento dessas questões, assim como o irritante egoismo de Dexter atropela a carreira da irmã. Alguém já parou pra pensar na quantidade de casos insolúveis que ele proporciona aos colegas por matar a grande maioria dos assassinos da cidade sem ninguém ficar sabendo?

Deb, agora promovida a tenente, tem que lidar com seus relacionamentos fracassados, com seu novo cargo cheio de politicagem e com seu irmão que nunca lhe conta nada. Em determinado momento, ela é obrigada a fazer terapia e sua incrível terapeuta, com algumas poucas conversas, coloca minhoca na sua cabeça a ponto de tudo que vimos na série até então perder completamente o sentido. É como se a Dra. Melfi, depois de três sessões, convencesse Tony Soprano a abandonar a máfia. Desnecessário. O final surpreendente, que deixa um bom gancho para a sétima temporada (e meio que corrige um erro grave do final da quinta), já estava de bom tamanho.