J. Edgar Hoover não é o nome do edifício do FBI em Washington a toa. O homem não só criou a agência, como estabeleceu métodos de investigação usados até hoje, padronizou a impressão digital como modo de identificação no mundo todo, conviveu com 8 presidentes norte-americanos e, do alto de sua mesa devidamente posicionada sobre uma plataforma para torná-lo mais imponente, enfrentou comunistas, mafiosos, terroristas e tudo mais que ameaçou o império americano no século passado. Em outras palavras, séries como Arquivo X, CSI, Dexter e 24 Horas não existiriam sem ele.
O fato de Clint Eastwood ter abraçado o projeto de sua cinebiografia também não deve ter sido por acaso. Além de defensor das mais nobres instituições americanas, o velho Clint tem a chance de mostrar o capítulo posterior, na história dos EUA, ao fim do velho oeste, seu território sagrado. Não é exagero dizer que, antes de Hoover, os EUA ainda eram um cenário de western, com suas leis frágeis e seus homens da lei sobrevivendo na base da estrela de xerife no peito.
Hoover organizou o combate ao crime, mas não era exatamente um herói. Usava seu poder para colocar escutas nas casas de celebridades (e até da primeira dama), manipulava os políticos de acordo com seus interesses, mentia bastante sobre seus feitos heróicos e, na intimidade do lar, gostava de usar roupas femininas. Se ainda hoje isso causa espanto com nosso querido Laerte, imagine naquela época, com um sujeito durão como Hoover, paladino da justiça, usando saia. O mais incrível é como o cowboy Eastwood demonstra sensibilidade ao tratar do tema, mostrando a força da mãe opressora (Judi Dench) e as tendências homossexuais reprimidas do personagem ao longo de muitos anos, do caso não consumado com sua secretária (Naomi Watts) ao relacionamento muito próximo com Clyde Tolson (Armie Hammer), seu melhor amigo e companheiro da vida toda.
Uma história de décadas, cheia de passagens importantes na história americana e ainda com muita dedicação à intimidade do protagonista é um desafio e tanto e a edição dá um jeito de intercalar diferentes épocas sem confundir a narrativa. Um ponto importante, infelizmente, incomoda: a caracterização dos personagens. Leonardo DiCaprio como Hoover até convence na interpretação, mas não no visual. Mesmo problema que aconteceu com seu Howard Hughes em O Aviador: DiCaprio tem cara de moleque e não há maquiagem que ajude. Quando envelhecido, ele não é Hoover, ele é DiCaprio com maquiagem e trejeitos de velho, como aqueles personagens irritantes do Adam Sandler. O Tolson de Hammer é ainda pior: dá a impressão de que a qualquer momento vai tirar a máscara e veremos o Ethan Hunt de Missão Impossível ali embaixo. Deram a maquiagem do ator coadjuvante para o departamento de estagiários? Qual o problema de dar o papel para atores realmente velhos, que não precisam tremer e sentir as costas a cada passo para demonstrar a idade?
Que o Clint Eastwood retome o cargo de ator e assuma papeis de peso como este. Como ele demonstrou naquela capa de revista, maquiagem é para os fracos.











